A tempestade perfeita de Bolsonaro no Brasil: do eleitor indignado ao voto na ultradireita

Por Carolina Botelho

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Manifestação todos com Bolsonaro. (Foto por Gabriela Felin).

A vitória de Jair Bolsonaro na disputa à presidência da República no Brasil surpreendeu muitos analistas em todo o mundo. Ainda candidato, o ex-capitão do exército fez uma campanha com elogios à ditadura militar brasileira e à tortura, criticou movimentos sociais, grupos de minorias e desdenhou de diferentes conquistas dos direitos civis e sociais dos últimos trinta anos. Como candidato a vice-presidente, escolheu o general do exército Hamilton Mourão, que poucos dias antes do pleito fez declarações públicas de que seria a favor de um “auto-golpe”, caso fosse necessário.

Atualmente, muito se discute sobre a emergência e o fortalecimento de uma suposta onda conservadora em diferentes países do mundo, tendência esta que teria contribuído para a vitória de lideranças de ultradireita também no Brasil. No entanto, não recorrerei a esse fenômeno para analisar a vitória de Bolsonaro. Proponho neste artigo chamar atenção para algumas questões que merecem destaque e que repousam sobre o ambiente político e econômico do Brasil nesta ocasião. Recorro também à ideia de que essa eleição, tal como qualquer outra, é um fenômeno amplo e multidimensional, portanto possui muitas explicações. Utilizarei, principalmente, resultados de pesquisas de percepção do brasileiro do monitoramento Pulso Brasil, da Ipsos Public Affairs. Também serão citados alguns dados complementares do Instituto Ideia BigData, Datafolha, Ibope, IBGE, Tesouro Nacional, Banco Central e Banco Mundial.

Presidente Jair Bolsonaro durante uma sessão plenária. (Foto por Edilson Rodrigues/Agência Senado).

Candidato da mudança?

Jair Bolsonaro não é um político inexperiente, nem novo no Congresso, mas conseguiu catalisar para si a indignação e as frustrações de milhares de brasileiros impactados pela crise política e as graves consequências de um cenário de catástrofe econômica.

A trajetória parlamentar do ex-capitão do Exército é longa, sempre aliada a políticos tradicionais no Brasil. Embora tenha atravessado um longo período no parlamento, a sua produtividade legislativa tem pouco destaque. Ao longo dessas quase três décadas, apesar de fazer uma campanha eleitoral baseada num discurso anticorrupção e pró-segurança pública, teve escasso trabalho parlamentar, aprovando apenas dois projetos de lei em defesa de categorias militares, das quais faz parte. Nada mais se encontra em sua produção legislativa, nem em defesa do combate à corrupção, tampouco a respeito de políticas de segurança pública. O trabalho pouco significativo permitiu que passasse incólume na agenda política brasileira.

Apesar disso, observando em retrospecto a trajetória política do ex-capitão e a despeito do discurso baseado em um compromisso moralizador para a sociedade e contra a corrupção, esteve filiado ao longo de sua trajetória como deputado a partidos muito afetados por denúncias de corrupção, como PP (onde esteve de 2005 a 2016, o partido com mais denunciados e condenados na operação Lava Jato, tendo entre seus expoentes Paulo Maluf), PTB (do deputado Roberto Jefferson, condenado na Lava Jato), além de partidos como PSC, PFL, PPR, PDC e PPB (antiga sigla do atual PP). Foi somente em 2018, no limite do prazo para se candidatar à disputa presidencial, que se filiou ao atual partido, o PSL (Partido Social Liberal).

Por que então Bolsonaro conseguiu capitalizar para si o discurso da mudança e contra a corrupção já que sua trajetória como parlamentar esteve ligada a partidos condenados em processos judiciais de corrupção, sem falar nas denúncias da imprensa sobre seu acúmulo pessoal de bens? Sugiro em seguida algumas informações que merecem ser destacadas e que respondem a essa questão.

Plenário do Senado Federal durante sessão deliberativa ordinária. (Foto por Jonas Pereira/Agência Senado).

Cenário pré-eleitoral

O Brasil vive, há quatro anos, um longo período de grave crise econômica, com alta taxa de desemprego e um pronunciado desequilíbrio fiscal. Acompanhando uma queda do PIB mais longa e profunda que a da Grande Depressão, o desemprego disparou em 2015 e 2016, no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, sucessora de Luiz Inácio Lula da Silva, ambos do mesmo partido, o PT. Lula completou seu segundo mandato em 2010 com recorde de popularidade e conseguiu que Dilma fosse eleita. Ela seria reeleita em 2014, mas sofreria impeachment em 2016 por infringir regras fiscais, após perder popularidade e apoio parlamentar devido à recessão e aos escândalos de corrupção que atingiram a petroleira estatal, membros de seu governo e o ex-presidente Lula, que seria preso em abril de 2018. O vice-presidente Michel Temer, do PMDB, que acompanhara Dilma na chapa duas vezes eleita, assumiu o poder em maio de 2016. Sua agenda de reformas econômicas foi interrompida por novos escândalos de corrupção e, enquanto o PIB iniciou uma lenta recuperação (cresceu 1% em 2017), o desemprego cedeu pouco, mantendo-se ainda ao redor de 12%. Temer ostenta um recorde de impopularidade quase imbatível no mundo: o percentual que o considera ótimo ou bom é tão baixo quanto as margens de erro das pesquisas de opinião.

Em 2014, iniciou-se no Brasil, por parte do Ministério Público, Polícia Federal e Judiciário, uma série de investigações e operações de combate à corrupção, lideradas pela Operação Lava Jato. Essa operação foi responsável por investigar e condenar uma série de lideranças políticas dos partidos tradicionais, com destaque para PP, PMDB e PT, mas atingindo também PSDB, PTB e muitos outros dos mais de 30 partidos em atividade no país. Para agravar mais o mal-estar da população, a segurança pública piorou de forma bastante acentuada. Em 2017, houve no Brasil cerca de 60 mil homicídios. Numa compilação realizada pelo Banco Mundial em 2017, entre outros 181 países, 94,5% possuem taxas de homicídios por cem mil habitantes menores que a brasileira. A sociedade, cada vez mais prejudicada pela crise econômica e indignada com as denúncias de corrupção que vinham à tona, já dava sinais de que esperava por mudanças.

Presidentes Dilma Rousseff e Michel Temer durante a posse de Dilma Rousseff. (Foto por Jefferson Rudy/Agência Senado).

Percepção do brasileiro sobre os políticos e o rumo do país

As pesquisas sobre percepção do eleitor no Brasil convergiam para direções parecidas. Mais de 80% dos brasileiros passaram a considerar a presidente Dilma como “ruim” ou “péssima” em outubro de 2015, contrastando com 20% menos de um ano antes. Os principais problemas citados pelos brasileiros eram o desemprego e a corrupção, seguidos pela violência e a preocupação com a saúde pública. Assim, a permanência da Operação Lava Jato “custe o que custar” foi defendida por 90% a 96% dos entrevistados na pesquisa e em todos os levantamentos realizados de 2016 a 2018.

O brasileiro demonstrava insatisfação com o governo, assim como uma descrença e falta de identificação com os políticos eleitos. Ainda sim, Lula, mesmo preso, liderava todas as pesquisas eleitorais até um mês antes das eleições, quando Fernando Haddad foi anunciado em seu lugar como candidato do PT. A popularidade de Lula não foi totalmente transferida a Haddad, mas a rejeição ao PT foi.

Nos monitoramentos que vão de 2017 ao período pré-eleitoral, mais de 90% dos entrevistados afirmam que os políticos atuais não os representam. Nem mesmo os políticos em que os próprios entrevistados votaram nas últimas eleições os representam segundo mais de 80% dos respondentes. Além disso, 55% dos entrevistados não votariam novamente no mesmo candidato em que votaram nas últimas eleições para presidente, 63% afirmavam que a corrupção é o tema que mais os angustia e 30% pretendiam votar em algum candidato fora da política tradicional nas próximas eleições para presidente.

Enquanto as instituições políticas são alvo de ampla rejeição, as que gozam de maior credibilidade – ainda que limitada perante o que se observa mundo afora – são a Igreja (61%), os militares (46%) e os juízes (42%). Os sentimentos predominantes sobre o futuro do país, que eram de “otimismo” ou “entusiasmo” para 60% dos brasileiros na primeira eleição de Dilma, já haviam se convertido em “revolta” ou “preocupação” de quase 80% às vésperas de seu impeachment, chegando a 90% no governo Temer. Se em 2010 mais de 80% dos pesquisados consideravam certo o rumo que o país vinha tomando, os que viam um rumo errado chegaram a 93% em 2015 e a 95% um mês antes das eleições de 2018.

Com Lula fora da disputa eleitoral e incapaz de transferir seus votos a Haddad, os monitoramentos realizados em pesquisas de percepção dos eleitores revelavam que a maioria das pessoas pedia mudanças no sistema político. Sendo assim, as candidaturas deveriam passar por novos entrantes, ainda não conhecidos, ou por políticos reconhecidos como “fichas limpas”.

Além dessas questões, há ainda duas que merecem investigação mais ampla por parte de pesquisadores e que foram muito importantes para a vitória do ex-capitão: o apoio de lideranças evangélicas e a influência de fake news sobre determinados grupos da população.

Sobre a primeira, Diniz Alves (2018), com dados DataFolha, estimou que a vantagem Bolsonaro sobre Haddad no segundo turno foi de 11 milhões de votos entre os evangélicos, maior que a diferença no total de eleitores. Em outras palavras, Haddad venceu entre os não evangélicos e seria eleito se a minoria crescente de evangélicos o tivesse apoiado em proporção semelhante à do restante do eleitorado. Bolsonaro também obteve maioria em uma forte polarização geográfica e socioeconômica, perdendo apenas nas regiões mais pobres.. Em um país com 5.570 municípios, nos mil de maior IDH Bolsonaro venceu em 97%, enquanto o segundo colocado venceu em 98% dos mil municípios de menor IDH.

Há ainda algo inédito nas eleições brasileiras. Bolsonaro tinha direito a muito pouco tempo de propaganda oficial na TV, mas passou a ser intensamente exposto via noticiário após sofrer um atentado e firmar aliança com um líder evangélico proprietário de um canal de TV e outras mídias. Além disso, pesquisadores, integrantes de organizações da sociedade civil e representantes do governo federal discutiram a influência dos conteúdos enganosos ou “fake news” no processo eleitoral. Embora a TV ainda seja o meio de comunicação mais utilizado pelos eleitores para se informarem, o aplicativo WhatsApp é muito popular no Brasil e foi o principal veículo disseminador de notícias falsas durante as eleições.

O próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou um conselho consultivo de especialistas para discutir essas influências no processo eleitoral, embora inócuo em termos práticos. Uma pesquisa do IDEA Big Data apontou que a maioria dos eleitores de Bolsonaro acreditou em um inexistente “kit gay” supostamente distribuído às crianças quando Haddad era ministro da Educação, em uma inexistente fraude das urnas eletrônicas contra Bolsonaro ou em outras fake news, como a que associava Haddad a incesto. Mesmo após o TSE proibir Bolsonaro de propagar essas fake news, o candidato e seus apoiadores continuaram (e continuam, mesmo terminada a eleição) disseminando alguns desses conteúdos.

Uma pesquisa publicada por Hunt Allcott e Matthew Gentzkow no Journal of Economic Perspectives  concluiu que as fake news tiveram influência desprezível nas eleições presidenciais americanas de 2016. No entanto, de modo geral, os eleitores brasileiros têm menos escolaridade e acesso a informação do que os americanos. A utilização do aplicativo WhatsApp também não se assemelha entre um lugar e outro. Seria interessante um aprofundamento de pesquisas como essas para o caso brasileiro, com a mensuração da influência do aplicativo sobre diversos grupos. Finalmente, seria também importante verificar uma possível conexão entre variáveis como renda, educação, utilização do WhatsApp e voto evangélico nessas últimas eleições.

A tempestade perfeita

A vitória de Bolsonaro foi viabilizada por uma combinação de fatores simultâneos. Em primeiro lugar, o líder das pesquisas eleitorais, Lula, estava preso por corrupção e seu substituto na corrida eleitoral não herdou toda a sua popularidade, mas sim toda a rejeição a seu partido

Apesar de ser deputado federal há quase três décadas em partidos políticos com graves denúncias e condenações por corrupção, Jair Bolsonaro saiu vitorioso nas eleições presidenciais brasileira intitulando-se o candidato da mudança e do combate à corrupção. O ex-capitão construiu um discurso eficiente e capitalizou a indignação de parte expressiva dos eleitores. Sua narrativa foi certeira ao mirar naquilo que a sociedade demandava: seria rigoroso com as questões relativas à segurança pública, combateria de forma enérgica a corrupção e devolveria ao cidadão o ambiente propício para a retomada do emprego no Brasil. Finalmente, ao adicionar o apoio de parte expressiva dos evangélicos e com uma campanha recheada de notícias falsas encaminhadas por seus apoiadores pelo aplicativo WhatsApp, Bolsonaro beneficiou-se de uma tempestade perfeita.

 

CAROLINA BOTELHO é visiting fellow no Centro de Estudos Latino Americanos da Universidade da Califórnia, Berkeley. Possui doutorado em Ciência Política pelo IESP/UERJ e mestrado em Antropologia e Sociologia pelo IFCS/UFRJ. Foi coordenadora e pesquisadora de ciência política na Fundação Getulio Vargas, consultora sênior na Ipsos Public Affairs e pesquisadora no Ipea. Passou por diversos órgãos governamentais estaduais e federais como assessora técnica. Possui alguns livros publicados, como “Reforma da Previdência – a visita da velha senhora”, pela Gestão Pública,“Caminhos trilhados e os desafios da educação superior no Brasil”, Eduerj e “Brasil pós-crise: uma agenda pra próxima década”, pela Elsevier. em artigos publicados no Estadão, O Globo e Exame.

 

 

 

 

 

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